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Padaria no interior do Acre abriga fósseis de milhões de anos

À primeira vista, a padaria sem nome não se diferencia dos outros comércios da ladeira do porto de Marechal Thaumaturgo (AC). Mas basta atravessar a porta do sobrado de madeira para dar de cara com mastodontes, preguiças-gigantes e o maior jacaré que já existiu na Terra.

Os fósseis desses animais estão sobre prateleiras na parede ao lado da entrada. Antes de buscar seu pãozinho, o cliente passa por uma costela de preguiça de 1,35 metro, um molar de mastodonte (parente do elefante) de 3,6 quilos e grandes dentes de Purussaurus, jacaré de até 10 toneladas extinto há 5 milhões de anos.

São amostras do tesouro do dono da padaria, o policial aposentado Renato Mota, que coleciona fósseis desde que se mudou para a cidade, há 40 anos.

O paleontólogo amador estima ter 150 peças, todas encontradas na região, em praias do rio Juruá e afluentes. A maior delas, guardada em sua casa, no andar de cima da padaria, é a omoplata de 32 quilos de uma preguiça-gigante.

Aos 81 anos, andando a passos lentos, Mota nem precisa mais ir atrás dos ossos. Conhecido por todos na cidade de 20 mil habitantes, agora são os moradores que levam para ele o que encontram.

"Hoje me trouxeram esse osso de uma preguiça-gigante. Essa parte é da canela com o pé", diz ele, segurando o novo fóssil. "Estavam tomando banho no rio São João e acharam."

A sua maior ossada era a cabeça de um mastodonte, que habitava a América do Sul. Pesava 70 quilos. Mas, ao tentar limpar o fóssil com uma lavadora de alta pressão, houve um acidente. "Tirei com o lava-jato o barro que tinha dentro da cabeça, e muitos pedaços de osso quebraram", lamenta.

O policial aposentado conta que gosta de colecionar desde criança. Primeiro, foi lápis, depois fósforos. "Tinha muitos chaveiros, mas começaram a enferrujar." Na parede da padaria, há também facas e espadas, segundo ele, do Dom Quixote, do rei Arthur, do Robin Hood e do filme "Piratas do Caribe".

Como todo colecionador que se preza, Mota estudou com afinco. Sabe identificar quase todos os fósseis, conhece as características e a distribuição geográfica dos animais extintos e montou "cards" explicativos com a ajuda do paleontólogo Alceu Ranzi.

Só que ele se cansou do desinteresse do poder público. Há anos, vem tentando doar a sua coleção, sem sucesso. "Tenho batalhado com todos os prefeitos para abrir um museu público, mas até hoje não consegui. Fico triste até. Depois de tantos anos coletando essas coisas, vou embora e não tem um local adequado para deixar para o público."

"A coleção é muito relevante", diz a paleontóloga Lucy Souza, do Musa (Museu da Amazônia), em Manaus, que analisou fotos do acervo a pedido da reportagem. "Já vi gente ter uma vértebra, dois ou três dentes, mas o acervo dele é uma coisa única."

"Há fósseis muito bem preservados, principalmente de preguiças-gigantes. Vi uma mandíbula de mastodonte completa. Isso é um registro que precisa ser estudado e pode complementar nosso conhecimento sobre esses animais do passado amazônico", afirma.

Para ela, outro fator relevante é o local onde foram achadas essas peças. "Marechal Thaumaturgo e o rio Juruá são locais pouco explorados perto de outras regiões. Por mais que já sejam de espécies conhecidas, esses registros ajudam a gente a entender a distribuição das espécies, as variações que podem existir na anatomia delas", explica Souza, que também ensina na Faculdade Estácio do Amazonas.

Segundo a pesquisadora, faltam políticas públicas para a paleontologia no país.

"A arqueologia, legislativamente falando, é muito mais evoluída do que a paleontologia. Existe o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), órgão regulamentador que faz a lei acontecer. Em uma escavação em sítio arqueológico, é preciso parar e contratar uma equipe de arqueólogos para fazer o salvamento desse material", diz.

"Na paleontologia, também há uma lei que garante a soberania sobre esses fósseis. São patrimônio da União e têm de ser protegidos e resguardados em ambientes públicos, mas não temos um órgão capaz de fazer o que o Iphan faz. Se alguém construir um prédio em local com fóssil e destruí-lo, não vai acontecer nada. É um crime sem punição", compara.

Essa maior proteção para artefatos arqueológicos, no entanto, tampouco funciona na prática em todos os casos. Santarém (PA), cidade amazônica à beira do Rio Tapajós, foi palco em janeiro de uma querela envolvendo o sítio Aldeia, um dos mais importantes das Américas e registrado no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos do Iphan desde 2008.

Sem licenciamento ambiental arqueológico, a prefeitura começou a construir um camelódromo na praça Rodrigues dos Santos, dentro do sítio Aldeia. Ao iniciar as escavações, os trabalhadores se depararam com uma grande mancha de terra preta de índio, indicativo de ocupação milenar, e fragmentos de cerâmica.

A obra foi embargada após mobilização dos movimentos indígenas e outras entidades da sociedade civil, com apoio do Ministério Público Federal. Apesar de Santarém ter reconhecimento arqueológico de ocupação contínua desde o século 9, a cidade não dispõe de uma representação do Iphan.

No caso de fósseis localizados, explica Souza, o procedimento correto seria entrar em contato com um paleontólogo. Em Marechal Thaumaturgo, cidade só acessível por barco e avião, o profissional mais próximo está em Cruzeiro do Sul (AC), a 140 km em linha reta.

Trata-se do paleontólogo Francisco Negri, professor do campus local da Ufac (Universidade Federal do Acre). Por telefone, ele conta que conhece Mota há muitos anos e que o policial aposentado já o procurou para doar os fósseis, mas que o desejo maior do seu colega amador é que a coleção fique em Thaumaturgo.

"Não tenho autoridade para dizer que vou pegar esse material para que fique em uma instituição segura. Não posso tirar o material da casa dele. Seria uma grosseria aos anos de trabalho que ele teve em coletar esse material."

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