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Pare de arrancar cabelos por causa da política

A situação política tem deixado boa parte da população brasileira descabelada – bem, pelo menos aquela parte que, ao contrário de mim, ainda tem condições técnicas de descabelar-se. O governo federal desmilinguiu. Os dois últimos presidentes aparecem agora com fantasias de presidiários nos protestos. O vice precisa, a cada par de semanas, desculpar-se por fazer alguma constatação para lá de óbvia – algo do nível “o céu é azul, o Sol amarelo”; “pela lei da gravidade, objetos caem na superfície da Terra” ou “presidente com 7% de popularidade não resiste três anos e meio no cargo”. O ministro da Fazenda, em tese aquele que entende de números, apresenta, em menos de duas semanas, três números diferentes e contraditórios para o Orçamento e o resultado das contas públicas. Ministros são objeto de investigação por lavagem de dinheiro em campanhas eleitorais. A mesma investigação atinge o presidente do Senado. O presidente da Câmara responde a denúncia por corrupção. Se quisesse continuar, daria para descer aos governos estaduais, prefeituras, Judiciário e preencher mais que esta página só com esse tipo de história. Nem precisa.

Como foi que tudo aquilo que parecia ir tão bem tão pouco tempo atrás degringolou tão rápido? O que impede o Brasil de fazer jus a seu tamanho, a seus privilégios naturais e a seu talento humano? Estaremos destinados eternamente ao fracasso? Estaremos, como Sísifo, condenados a ver a pedra rolar morro abaixo, sempre que ela está quase chegando lá no alto? Duas semanas atrás,escrevi aqui sobre um livro cuja epígrafe vale a pena citar, pois aplica-se perfeitamente à situação brasileira atual. Trata-se de uma frase do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard: “Deve-se viver a vida olhando para a frente, mas só se pode entendê-la olhando para trás”. Olhar para trás significa olhar para a história, para nossas origens e para os fatos, ao longo dos anos, que fizeram as coisas ser como são, quando poderiam simplesmente não ser assim.

LIVRO DA SEMANA | "Raízes do Brasil"  Sérgio Buarque  de Holanda, Companhia  das Letras, 2015 256 páginas R$ 39,50 (Foto: Divulgação)
Ao lado de tantos outros clássicos da nossa história e sociologia, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, destaca-se pela influência, mantida intacta desde que foi lançado, em 1936, e atualizado, em 1947 (uma nova edição foi lançada no início deste ano). Não é um livro cheio de detalhes exaustivos, como as obras do grande historiador que Sérgio se tornou nos anos seguintes, mas um pequeno ensaio, em sete capítulos, que expõe ideias simples sobre o caráter nacional e nossa relação com o trabalho, a família e o poder. Por ser menos extenso, menos pretensioso, mas mais reflexivo, talvez seja também ainda mais valioso. Ninguém precisa concordar com tudo o que está escrito lá, mas é inegável o poder intelectual do autor para perscrutar as características mais essenciais – portanto duradouras – da nossa nação. Elas estão aí até hoje: o predomínio das relações familiares sobre as instituições impessoais do Estado; a visão do trabalho duro como algo vil, de menor valor perante a “aventura”, a “imaginação” ou a “inteligência”; o caráter bacharelesco de nossos intelectuais, sempre ciosos de pertencer a uma casta de “doutores” que sabem falar bonito, mesmo sem ter muito o que dizer; uma civilização de raízes rurais, baseada em senhores e escravos, no patrimonialismo e no aparelhamento do Estado a serviço de interesses particulares, portanto incompatível com o capitalismo moderno; o caudilhismo e as oligarquias que no fundo consideram a democracia, mesmo nos períodos em que é adotada como regime, um grande “mal-entendido”; a valorização do desleixo, dos afetos e da informalidade nas relações, para além da lei – sintetizada na figura do brasileiro como o “homem cordial”, expressão que Sérgio empresta do poeta e diplomata Ribeiro Couto para definir quem põe o coração sempre em primeiro lugar, mesmo à revelia da razão ou da justiça.

Não é preciso ir muito longe para enxergar tudo aquilo que Sérgio descreve no dia a dia de nossas casas, empresas, ruas e, obviamente, gabinetes de Brasília. “É frequente imaginarmos prezar os princípios democráticos e liberais quando, em realidade, lutamos por um personalismo ou contra outro”, escreve. “Todo o pensamento liberal-democrático (…) está em contraste direto com qualquer forma de convívio humano baseada nos valores cordiais. Todo afeto entre os homens funda-se forçosamente em preferências. Amar alguém é amá-lo mais do que a outros. Há aqui uma unilateralidade que entra em franca oposição com o ponto de vista jurídico e neutro em que se baseia o liberalismo.” Para o Brasil mudar, seria preciso, diz Sérgio, mudar a essência do nosso caráter. É uma ideia que pode parecer quimérica. Ela decerto não trará meus cabelos de volta, mas pode ajudar a manter a sanidade daquilo que ainda resiste embaixo deles.

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