O lugar do ladrão na política

EUGÊNIO BUCCI

Na teoria, não é difícil apontar diferenças entre uma quadrilha e um partido político. Os manuais de Direito Penal ensinam que quadrilha é uma associação com o objetivo de praticar crimes. Os professores de ciência política sustentam que um partido age dentro dos preceitos legais, com a finalidade de disputar, conquistar e exercer cargos públicos. O sonho de quem ingressa num partido político é comandar a máquina estatal e, quanto a isso, não há nada de ilícito. Enquanto a quadrilha existe para delinquir, o partido existe para alcançar e manter o poder, nos marcos da normalidade do estado de direito.

Na prática, as duas entidades às vezes se misturam. Quando as duas estruturas se enamoram, as pernas de uma se trançam nas da outra e geram uma confusão medonha. O noticiário sobre a roubalheira na Petrobras – que parece um filme sobre o fim do mundo, umApocalipse now em que as engrenagens da corrupção, azeitadas com óleo cru, vão moendo as instituições nacionais – é mais uma prova disso. Onde terminam as quadrilhas e onde começam os partidos?

O tema não é inócuo, nem fácil, nem indolor. Qual a diferença entre uma agremiação política em que alguns são corruptos e uma organização criminosa em que alguns são políticos? A pergunta machuca. Muita gente boa, gente com biografia limpa, até mesmo heroica, preferia não dar ouvidos a essa indagação. Mesmo assim, a pergunta queima a pele de cada um de nós, como o sol a pino de verão. Não dá para ignorá-­la. Da resposta que soubermos dar a essa interrogação dependerá o futuro da democracia em nosso país.

Os matemáticos se deliciam com perguntas parecidas, mas sem as mesmas consequências morais. Especulam sobre o problema do monte de areia. A questão é intrigante, de difícil solução. Um monte de areia continuará sendo um monte de areia, mesmo se tirarmos de cima dele uma ou duas colheres de grãozinhos que lá estão. Mesmo depois de tirarmos um balde, ou muitos baldes, lá estará nosso monte de areia, ainda digno desse nome. A partir de um ponto, se não pararmos de subtrair areia, ele deixará de ter o aspecto de um monte e ficará com cara de areia espalhada no chão. O problema reside em saber exatamente o número que separa uma coisa (o monte de areia) da outra (areia espalhada no chão). Quantos grãos de areia são necessários para que tenhamos um monte de areia?

O mesmo raciocínio vale para a água. Você pode tirar piscinas e mais piscinas de uma represa, nem por isso ela deixará de ser uma represa. De repente, a gente se dá conta de que a represa começou a secar. Num belo – e triste – dia, a gente percebe que o mar virou sertão. Aí, já era.

Voltemos então a nossos partidos políticos. Primeiro, aparece lá um ladrão, mas os filiados dão de ombros. As desculpas são conhecidas: “Até no Vaticano existe corrupção”; “A classe dominante rouba muito mais” (nos partidos de esquerda); “É só para complementar meu caixa, se eu estivesse na iniciativa privada ganharia dez vezes mais” (nos de direita); “Ele não pegou para ele, foi só para o partido”; “É só uma reserva para a gente pagar advogados”.

A coisa vai indo, vai indo, até que fica impossível saber se a corrupção é mesmo um “mal necessário” para pôr em prática o programa político do partido ou se é o programa político que está a serviço da corrupção. O roubo é necessário para assegurar a perpetuação no poder. Ou o poder se faz necessário para garantir a perpetuação do roubo? E então? Que linha que separa uma coisa da outra?

Para complicar nossa equação, aqui os números não ajudam tanto. A resposta depende de quem faz a pergunta. Aos olhos de uma formiga, um punhado de areia é uma cordilheira. Aos olhos de um elefante, um monte de areia é desprezível. Se o eleitor não liga, a incidência dos ladrões na política será maior. Se a comunidade fiscaliza, será menor. A linha que separa um partido ainda saudável de uma quadrilha inescrupulosa não pode ser dada por um critério absoluto. Depende da consciência de cada um de nós. Você, por exemplo: até onde você vai? Até que ponto suporta o mau cheiro?

Nosso maior desafio, hoje, é construir, a partir de nossos limites pessoais, um limite que tenha uma validade coletiva, institucional. Quase todos concordam que o melhor lugar do ladrão na política é fora dela. Na cadeia, de preferência. A gente não sabe é dizer o que distingue uma quadrilha de um partido político. Por isso, não consegue saber quem deve sair e quem deve ficar.

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